
Muito interessante os estudos com crianças e a sua receptividade a ideias fundamentais do pensamento místico. Crianças a partir dos 3 anos atribuem propósitos para objetos não animados. Crianças de 7 a 8 anos eram capazes de relacionar objetos a alguma função, coisas pontiagudas serviam para os animais se coçarem, pássaros para fazer musica, etc...
O mesmo pensamento pode ser percebido nas religiões primitivas. Nossos antepassados caçadores, sentiam uma poderosa conexão mistica com a Natureza e intuitivamente a atribuíam um proposito e uma aura sagrada. Que outro proposito a Floresta teria, senão, servir de santuário para os animais, arvores e plantas que eram fonte de seu sustento. Uma Grande Mãe que nutre seus filhos. Grupos"primitivos", como por exemplo, os índios, raizeiros, xamãs, assim como os antigos caçadores tratam essas forças com muita reverencia e respeito.
Depois de deixar a Floresta, os mesmos caçadores acabavam sentindo a perda desta ligação com o sagrado. Da necessidade de manter este elo encantado nasceu a tradição, que continua viva até hoje, de criar amuletos, jóias, e objetos devocionais da própria natureza. Os trofeus de caça eram dispostos como lembranças desse contato com o divino, mas o espirito dos animais era honrado e a sua natureza sagrada e dignidade eram mantidos após sua morte. Os amuletos, talismãs e jóias alem de servir para adornar os caçadores estavam imbuídos de características sobrenaturais e muitas vezes tinham o objetivo de proteger contra doenças, dar força e manter espíritos maus longe.

Não é a toa que muitas "historias de criança" e fabulas tem a floresta e seus animais falantes e encantados em seu cenário. O problema é que assim como a criança cresce e chega a adolescência, a humanidade evoluiu, e na sua adolescência se afastou por rebeldia das forças que lhe nutriam. O homem com o tempo parece ter se esquecido da natureza das coisas sagradas. Jóias passaram a ser apenas objetos decorativos, trofeus de caça símbolos de status, e assim, aos poucos fomos deixando nosso Ego dar as cartas.
No seculo XIX, o Êxodo Rural aconteceu com uma intensidade nunca vista antes. A sociedade vitoriana sentiu essa perda de conexão com a Natureza quando se mudou em massa para as cidades. A resposta foi automática, produtos ligados a natureza e a taxidermia viraram uma coqueluche.

Uma guerra promovida pela Revolução Industrial contra a Mãe Natureza em prol do luxo. Quanto mais o elo com a Natureza Sagrada era esquecido mais as necessidades pela taxidermia se tornavam bizarras. Nascia a taxidermia antropomórfica, seus expoentes, como por exemplo, Dr Hughes' Pastime sentiam uma afinidade por temas obscuros e alguns de seus trabalhos eram inspirados nos contos do Marques de Sade.
Um detalhe importante a ser notado é que a sociedade vitoriana sempre manteve o ar de "Racionalidade". A ciência acima da superstição, o conhecimento cientifico acima do conhecimento empírico. A guerra promovida pela Revolução Industrial contra a Mãe Natureza aconteceu graças a uma superstição (in)racional ou inconsciente escondida atrás desta racionalidade doentia. Tudo para atender um desiquilíbrio inconsciente da nossa sociedade. Nos dias de hoje ainda podemos sentir isso: Animais extintos ou em perigo de extinção, ecossistemas detonados, lugares sagrados devastados.
